NOTA TÉCNICA POR FERNANDO LANDULFO*

1- O biodiesel e suas características 

1.1- O que é: 

Já está mais do que esclarecido que o biodiesel, é um produto da química orgânica (éster), gerado a partir de fontes renováveis (ácidos graxos de origem animal (sebo) e vegetal (óleos vegetais, inclusive reciclado de cocção de alimentos)), que tem como objetivo substituir o óleo diesel derivado do petróleo (petrodiesel). [1]

Sendo que no Brasil, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) [2] define biodiesel como sendo:

“… um combustível renovável obtido a partir de um processo químico denominado transesterificação. Por meio desse processo, os triglicerídeos presentes nos óleos e gordura animal reagem com um álcool primário, metanol ou etanol, gerando dois produtos: o éster e a glicerina. O primeiro somente pode ser comercializado como biodiesel, após passar por processos de purificação para adequação à especificação da qualidade, sendo destinado principalmente à aplicação em motores de ignição por compressão (ciclo Diesel).” [2]

E a sua especificação deve atender a Resolução ANP 920/2023. [1, 2, 4, 5]

1.2 – A oxidação e o ataque microbiano do biodiesel

O biodiesel é cerca de 30 vezes mais higroscópico que o petrodiesel (pode conter até 0,15% de água dissolvida, enquanto o petrodiesel pode incorporar cerca de 0,005%). Essa higroscopia é devida, principalmente, ao conteúdo de O2 em sua molécula e à estrutura química polar de seus grupos carboxílicos. Propriedade essa que é transferida parcialmente ao óleo diesel comercial Bx [1, 17]

Essa umidade, principalmente quando além dos limites permitidos, induz o aparecimento de água dissolvida ou emulsões. [1]

Altos teores de água dissolvida, geram o aparecimento de microgotas, que culminam no aparecimento de uma terceira fase livre no fundo dos tanques, que facilita a proliferação de micro-organismos. [1, 15, 16]

Em resumo, a água nos tanques de armazenamento de biodiesel, pode ser encontrada sob três formas distintas: emulsionada, dissolvida e livre.

Figura 01 – Formas como a água pode ser encontrada nos tanques de armazenamento de biodiesel. Fonte: Bento & Cavalcanti, 2012 apud [17].

Em tempo, não se pode esquecer a temperatura, um dos fatores mais importantes que afetam a degradação de muitas substâncias que contém compostos orgânicos. Incluindo o biodiesel. Assim como os valores de pH. [17]

A atividade metabólica de alguns micro-organismos pode contribuir na redução do pH da água livre, pela produção de 22 ácidos orgânicos. [17]

Para que o processo de deterioração ocorra, é preciso que os micro-organismos presentes no tanque de armazenamento tenham capacidade de utilizar o combustível como fonte de carbono. [16, 17]

Essa população pode adentrar entrar no sistema via sistema de ventilação ou de bombeamento. Afinal de contas, são micro-organismos presentes no solo, ar, assim como, na água. [16, 17]    

Muitas espécies de micro-organismos aeróbicos e anaeróbicos, puderam ser isolados em sistemas de estocagem de combustíveis.  Dentre os quais pode-se citar: [16]

  • Bactérias aeróbicas: Pseudomonas, Bacilus, Acinetobacter, Rhodococcus, Alcaligenes, Aerobacter e Aeromonas. [16,17]
  • Bactérias anaeróbicas: redutoras de sulfato (BRS) e desnitrificantes (BDN). [16, 17]
  • Leveduras e fungos dos gêneros: Candida, Rhodotorula, Aspergillus, Fusarium, Hormoconis e Penicillium. [16, 17] 

Quando o processo de contaminação já se encontra instalado, pode-se notar a ocorrência de entupimento em filtros, por bio sedimentos, e corrosão de partes metálicas por biocorrosão. [7]

No entanto, o ataque microbiano também age negativamente sobre a estabilidade a oxidação do biodiesel (acelera o processo de oxidação do combustível), além de aumentar o seu potencial corrosivo. [1, 7, 12, 15, 16] 

Isso sem falar na interferência na acidez, que pode provocar corrosão nos sistemas de alimentação do veículo e de estocagem e abastecimento dos postos e interferências no funcionamento das câmaras de combustão: [1, 12, 15, 16] 

A velocidade da degradação biológica depende diretamente da concentração e da composição do óleo, do tipo de micro-organismos presentes, assim como, da presença de moléculas biossurfactantes (material de origem do metabolismo de micro-organismos que diminuem a tensão superficial e aumentam a degradação do biodiesel. [16]   

Nesse ponto, é importante relembrar que a contaminação microbiana durante o armazenamento, sem controle e a aplicação de boas práticas, não é nenhuma novidade.  Trata-se de um problema agudo do petrodiesel, que apenas se agravou com a introdução de biodiesel, devido a um aumento na geração de sedimentos biológicos. [7]

Ainda em tempo, é preciso relembrar que a oxidação do combustível, assim como, os seus subprodutos, também compõem os principais problemas ao qual esse biocombustível está sujeito. [1, 11, 12, 13, 14, 15]

Durante a reação de oxidação do biodiesel, são formados produtos primários (mais instáveis), que se decompõem e formam outros mais estáveis: aldeídos, cetonas, hidrocarbonetos, epóxidos, álcoois e ácidos carboxílicos de cadeia curta. [1, 12, 15] 

Contudo, também são formadas: gomas e compostos poliméricos indesejáveis. Assim como, tem-se a alteração da viscosidade e a acidez do biodiesel. [1, 12]

Muitos desses produtos, além de corroerem as partes metálicas do motor, são insolúveis, causando entupimentos, depósitos e carbonização no sistema de injeção. [1, 12]

Os mecanismos que dão origem à oxidação se encontram detalhadamente explicados na nota técnica: Biodiesel – Mitos e verdades [1]. 

Também é preciso relembrar que é preciso tomar muito cuidado ao se interpretar essa propriedade e a sua especificação. 

Como descrito na nota técnica Biodiesel – Mitos e verdades [1], um biodiesel recém produzido, possui uma estabilidade a oxidação de 13 horas. E que passado esse tempo o combustível NÃO apresenta mais nenhuma estabilidade a oxidação, estando assim imprestável. [1]

Isso NÃO é verdade! [1]    

Essa propriedade, assim como qualquer outra, deve ser avaliada (medida) periodicamente. Pois, com o passar do tempo e o consequente envelhecimento natural do combustível (assim como ocorre com qualquer outro produto perecível), todas as suas propriedades tendem a decair, até um limite onde o biodiesel se torna inapropriado, para utilização em motores. [1]     

1.3 – A utilização de aditivos no biodiesel.

Chama-se aditivo: uma “substância química adicionada a outra para melhorar-lhe as propriedades” [3, 8].

1.3.1 – Aditivos antioxidantes

Denomina-se antioxidante a substância capaz de retardar ou diminuir a oxidação de produtos perecíveis. [8, 11, 12, 15]  

São compostos químicos que reagem com os compostos intermediários da oxidação (radicais livres e peróxidos), assim que se formam, impedindo a continuidade do processo oxidativo. [11, 12, 14, 15]

Mesmo que em baixas concentrações, podem atuar no processo de oxidação de diferentes formas. [11, 13] 

Por exemplo:

  • Prolongando a fase de iniciação de forma não linear (por vezes exponencial). [11,13]
  • Inibindo a propagação. [11,13]

Contudo: 

  • NÃO previnem completamente a oxidação: o seu objetivo é ganhar tempo! [11]
  • Aumentam os custos. [14] 
  • Exigem um controle mais rígido da qualidade. [14]

Costumam ser utilizados por diversos segmentos da indústria: petroquímica, alimentos, tintas e vernizes, combustíveis, lubrificantes e fármacos [11].

Podendo apresentar mais de um tipo de mecanismo de ação. [11]

A classificação dos antioxidantes se dá segundo o seu mecanismo de ação em: [8, 11]

  • Primários: quebram a cadeia de reação da oxidação, através da doação de elétrons ou átomos de hidrogênio aos radicais livres, convertendo-os em produtos termodinamicamente estáveis e/ou reagindo com os radicais livres, formando complexo lipídio-antioxidante, que pode reagir com outro radical livre. [8, 11, 13, 15]
  • Secundários: diminuem a velocidade da reação de oxidação ou atuam na decomposição de hidroperóxidos. Não se convertem em radicais livres estáveis, mas sim, fazem uso de diferentes mecanismos, a fim de retardar a taxa das reações de oxidação. [8, 11, 13, 15] 

Os antioxidantes secundários podem também: [11]

  •  Promover a complexação de íons metálicos, que catalisam a oxidação, desativando-os. [11]
  •  Regenerar antioxidantes primários pela reposição de hidrogênio; decompor hidroperóxidos em espécies não reativas. [11] 
  • Desativar o oxigênio singleto; [11]
  • Absorver a radiação ultravioleta. [11]
  • Agir como sequestradores de oxigênio. [11] 

Além disso, tendem, muitas vezes, a aumentar a atividade dos antioxidantes primários. [11]

Os antioxidantes secundários sofrem uma segunda classificação: sinergistas, removedores de oxigênio, biológicos, agentes quelantes e mistos. [36, 38, 40]

No que diz respeito à origem, os antioxidantes podem ser naturais ou sintéticos. [11] 

Entre os antioxidantes naturais mais utilizados e estudados encontram-se: tocoferóis, ácidos fenólicos, assim como, os extratos de algumas plantas: alecrim, sálvia, beterraba e jabuticaba.  Além de diversos óleos essenciais. [36, 12, 13]

Já os antioxidantes sintéticos mais utilizados são os difenois e os polifenóis. [36, 12, 13]

Por exemplo:

  • 1,2-dihidroxibenzeno. [13]
  •  1,3-dihidroxibenzeno. [13]  
  • 1,4-dihidroxibenzeno. [13]
  • 3,5-di-t-butil-4-hidroxitolueno (BHT). [8, 11, 12, 14]
  • 2 e 3-t-butil-4-metilmetoxifenol (BHA). [11, 12, 14]
  • 3,4,5-ácido triidroxibenzóico-propil galato (PG). [11, 12, 14]
  • Terc-Butilhidroquinona (TBHQ). [8, 11, 12, 14]

Já no que diz respeito às aplicações específicas em combustíveis e lubrificantes, o quadro a seguir exibe os mais utilizados, segundo a referência consultada:

Quadro 01 – Aditivos antioxidantes sintéticos mais comuns e suas respectivas aplicações. Fonte dos dados: [11]

AditivoComposiçãoAplicações
AO-22N, N’-di-2-sec-butil-fenilenodiaminaÓleos de turbina, óleos de transformador, fluidoshidráulicos, ceras e graxas.
AO-24N, N’-di-2-butil-1,4-fenilenodiaminaÓleos de baixas temperaturas.
AO-292,6-di-tert-butil-4-metilfenolÓleos de turbina, óleos de transformador, fluidoshidráulicos, ceras, graxas e gasolinas.
AO-302,4-dimetil-6-tert-butilfenolCombustível de jato e gasolinas, incluindo gasolinaspara aviação.
AO-312,4-dimetil-6-tert-butilfenollCombustível de jato e gasolinas, incluindo gasolinaspara aviação.
AO-322,4-dimetil-6-tert-butilfenol e 2,6-di-tert-butil-4-metilfenolCombustível de jato e gasolinas, incluindo gasolinaspara aviação.
AO-372,6-di-tert-butilfenolCombustível de jato e gasolinas, amplamente aprovadopara combustível de aviação.

1.3.1.1 – Com relação especificamente ao biodiesel

A utilização de aditivos antioxidantes, é obrigatória para os produtores e importadores, segundo o artigo 6º da Resolução ANP 920/2023 [1]

O que desacelera o decaimento da estabilidade oxidativa, mantendo a propriedade “relativamente constante” por mais tempo. [1]

No entanto, é preciso ter em vista que a desaceleração depende diretamente não só da qualidade e da quantidade de aditivo inserido no biodiesel. Outros fatores: condições de transporte e armazenamento do produto (“boas práticas”) também precisam ser considerados. [1]

No que tange a composição do aditivo antioxidante, o artigo 6º da Resolução ANP 920/2023 [9], NÃO impõe qualquer tipo de produto. Contudo, descreve algumas características do aditivo a ser utilizado: [1, 5]

“I – ser isento de elementos formadores de cinzas e organometálicos; 

II – ser compatível com óleos lubrificantes aplicáveis aos motores do ciclo Diesel; 

III – não causar efeitos colaterais ao funcionamento do motor, sistema de exaustão e pós-tratamento; e 

IV – não afetar a especificação do biodiesel, mantendo o produto dentro dos limites definidos no Anexo.” [5] 

“§ 3º A informação do tipo e concentração do aditivo deve constar no certificado de qualidade fornecido pelo produtor ou importador.” [5]

Nesse ponto é importante relembrar que: 

  • A Resolução ANP 920/2023 trata especificamente do biodiesel puro B100, que será adicionado ao óleo diesel A (“petrodiesel”), formando o óleo diesel comercial Bx (atualmente B15).
  • A Resolução ANP 968/2024, que trata especificamente do óleo diesel comercial Bx, NADA diz a respeito da obrigatoriedade do uso de antioxidantes pelos distribuidores (formuladores). [1, 4]

1.3.1.1.1 – Antioxidantes naturais.

A curcumina e seus derivados, nas versões com halogênios e hidroxilas, tem sido muito estudada para prevenir a oxidação do biodiesel. [13] 

Em testes de laboratório, mesmo em concentrações muito baixas, 0,05%, a curcumina conseguiu elevar em até 25% o valor do tempo de indução. [13]

Contudo, este composto NÃO é viável para uso no Brasil, pelas seguintes razões: [13]

  • A concentração ideal para atingir a especificação da ANP é acima de 1% em peso: grandes dificuldades de dissolução em misturas de metil-ésteres. [13] 
  • Quando em contato com o diesel, a curcumina forma uma borra que torna seu uso inviável, em função do entupimento do motor. [13]

No que diz respeito ao extrato natural liofilizado de jabuticaba, os resultados de experiências em laboratório mostraram que, apesar de promissores, no que diz respeito ao tempo de indução, o seu uso é totalmente inviável, uma vez que, em sua composição, existe material totalmente insolúvel em biodiesel. [13]  

Com relação a utilização de óleos essenciais, os resultados de testes de laboratório NÃO foram promissores para tempo de indução. [13]

No entanto, para buscar atividade sinérgica com outros aditivos comerciais, pode levar a bons resultados. Sua adição ao biodiesel diminuiu a viscosidade e apresentou boas propriedades anticongelantes. [13] 

A escolha do óleo é imprescindível, uma vez que nem todo óleo impacta positivamente sobre o tempo de indução do biodiesel. Como exemplo positivo, testes de laboratório mostraram que o óleo de limão tahiti diminuiu a viscosidade, melhorou o tempo de indução, apresentou efeito sinérgico com BHT e tem as melhores propriedades anticongelantes. [13]

Os extratos de folha de amendoeira da praia, amoreira e goiabeira apresentaram resultados viáveis como aditivos antioxidantes para biodiesel. Sendo que o melhor resultado foi obtido com o extrato de folha de goiabeira. [12]

Contudo, NÃO foi efetuado um teste comparativo de eficiência em relação aos antioxidantes sintéticos. 

1.3.1.1.2 – Antioxidantes sintéticos.

Várias pesquisas têm sido feitas a respeito do armazenamento e da estabilidade oxidativa do biodiesel, produzido a partir de óleos comestíveis. Sendo que a aditivos antioxidantes sintéticos como: butil-hidroxi-anisol (BHA), butil-hidroxi-tolueno (BHT) e terc-butil-hidroquinona (TBHQ) são mais estudados. [11]

Contudo, a matéria prima escolhida para sintetizar o biodiesel, também pode influenciar diretamente o desempenho do antioxidante. [11]

Por exemplo, testes de laboratório, mostraram que: 

  • Algumas soluções de BDEA (butildietanolamina) com determinadas redoxonas, como por exemplo o tempol (4-Hidróxi-2,2,6,6-tetrametilpiperidina-1-oxil), se mostram viáveis como antioxidantes de biodiesel. [8, 11]
  • No biodiesel derivado de óleo de soja, óleo de colza, óleo de cozinha usado, sebo bovino e de óleo de palma, foi observado que antioxidantes sintéticos como: TBHQ, BHA, BHT e pirogalol foram mais eficazes como antioxidantes do que produtos naturais, como o tocoferol. [8, 11]
  • No que diz respeito especificamente ao biodiesel produzido a partir de etanol e óleo de girassol, constatou-se que o TBHQ foi o que apresentou os melhores resultados: [8, 11]

“O biodiesel contendo TBHQ pode apresentar um tempo de estocagem, a 25 ºC, três vezes maior que o tempo verificado para o B100 sem antioxidante.”. [17]

  • Já para o biodiesel de óleo de karanja, o que apresentou melhor desempenho foi o propil galato, seguido pelo BHA e BHT [11].
  • Uma comparação entre compostos antioxidantes, comumente utilizados e comerciais, quando aplicados ao biodiesel produzido a partir de ácidos graxos livres, resultou na seguinte ordem crescente de eficiência: “pirogalol, Ethanox 4760E, propil galato, Ethanox 4740, BHA, BHT, TBHQ, 2,5-di-terc-butilhidroquinona (DTBHQ), α-tocoferol” [8, 11] (sic). 
  • A menor dose de antioxidante encontrada, que promovesse um aumento notável no período de indução do biodiesel foi de aproximadamente 100 ppm [11] (sic).

1.3.2 – Impactos no óleo diesel comercial (Bx)

NÃO existe uma especificação oficial para a estabilidade oxidativa do óleo diesel comercial. [1]

A Resolução ANP 968/2024, que trata especificamente do óleo diesel comercial Bx, NADA diz a respeito da obrigatoriedade do uso de aditivos pelos distribuidores (formuladores). [1] 

Contudo, a estabilidade oxidativa da mistura é diretamente influenciada pela mesma propriedade do biodiesel que a integra. [1]

Durante testes realizados com óleos diesel comerciais experimentais, B15 e B20, vários fabricantes manifestaram que o valor mínimo dessa propriedade deveria ser de pelo menos 20 horas. [1]

No que diz respeito à utilização de aditivos antioxidantes no óleo diesel comercial:

  • A estabilidade à oxidação está diretamente relacionada ao teor do biodiesel nas misturas (BX). [9, 10]
  • Testes de laboratório mostraram que misturas com teores em volume de biodiesel em óleo diesel, maiores do que o B10, torna viável a utilização de aditivos antioxidantes. [10] (nosso negrito)

Assim como ocorre com o biodiesel puro (B0), NÃO há um período de validade oficial.

Contudo a Petrobras, cita que deve ser, em média, de pelo menos 30 dias. [10] 

  1. – Aditivos biocidas

A água é o principal fator de desencadeamento do crescimento de micro-organismos deteriogênicos em tanques de combustível. E a sua drenagem, assim como, procedimentos de limpeza periódica dos tanques são consideradas ações preventivas eficientes (boas práticas). [16, 17] 

A utilização de aditivos emulsificantes, realmente, pode provocar a dispersão de material biológico, que fica aderido nas paredes dos tanques de armazenamento, na forma de biofilmes. [16]

Contudo, essa prática pode levar a uma maior saturação do líquido com partículas em suspensão. O que pode culminar numa maior frequência de troca de filtros (entupimentos) [16]  

Além disso, a remoção desse material, expõe as partes metálicas dos equipamentos, sujeitando-os mais aos processos de corrosão e disponibilizando mais material orgânico aos micro-organismos. [16]

No entanto, a remoção do filme protege os equipamentos do processo corrosivo provocado pelos micro-organismos que o integram. [16]

Além da aplicação das boas práticas de armazenamento, a conservação do combustível também pode ocorrer através da aplicação de produtos químicos (denominados biocidas ou antimicrobianos), que impedem e/ou controlam a proliferação de bactérias deteriogênicas. [7, 16]

Os biocidas compreendem produtos com largo espectro de componentes de estruturas químicas diversas (inorgânicas e orgânicas). [7, 16]

Os biocidas podem, a princípio, ser classificados em:

  • Oxidantes: ozônio, peróxido de hidrogênio, compostos clorados. Oxidam os compostos constituintes das células dos micro-organismos, o que os torna eficientes para quase todos os tipos.  [16]
  • Não oxidantes: compostos sulfurados, estanhados, isotiazolonas, sais de cobre, entre outros. Interferem no metabolismo dos micro-organismos ou pela desintegração da parede celular. [16] 

E dependendo do princípio ativo e da dosagem, pode ser utilizado de modo curativo (sistemas já contaminados) ou preventivos. [16]

Ou seja, pode-se utilizar o tratamento contínuo (mais frequente, com concentrações baixas), ou o tratamento de choque, com concentrações altas (menos frequente), aplicados a intervalos pré-determinados. [7]

Contudo, NADA foi encontrado nas referências consultadas a respeito da recuperação da qualidade do combustível contaminado tratado. 

Quanto às suas características básicas, um biocida para o uso durante o armazenamento de combustíveis deve: [7, 16] 

  • Possuir um amplo espectro de ação (atuar contra fungos, bactérias aeróbias e anaeróbias); [7, 16] 
  • Manter o seu efeito na presença de outras substâncias; [7] 
  • Não ser corrosivo ao sistema de alimentação do veículo; [7]
  •  Ser biodegradável; [7]
  • Coeficiente de partição que garanta ação nas fases oleosa e aquosa; [7]
  •  Ter baixo custo. [7]

No que tange a aplicação em frotas, que contam com fornecedor definido de combustível, recomenda-se um teste de laboratório prévio, em várias amostras, a fim de determinar a concentração ótima de biocida a ser aplicado em função da contagem microbiana. [7]

Contudo, recomenda-se que os números microbianos, assim como, as taxas de corrosão no sistema, devam ser analisados também em períodos frequentes, durante o tratamento com o biocida. [7]

Algumas das exigências para um bom biocida dizem respeito a: [16]

  • Concentração a ser aplicada: define a atividade em concentrações que não afetem a qualidade do combustível e sejam economicamente viáveis. Tendo como base comparações entre o CMI (Concentração Mínima inibitória e a CMB (Concentração Mínima Biocida). [16]
  • Seu coeficiente de partição (solubilidade na água e no óleo): define a sua eficiência nas fases oleosas e aquosa do combustível estocado [16]
  • Estabilidade química e térmica [16]
  • Atuar em amplo espectro sobre micro-organismos (bactérias, fungos e algas) [16]

No que diz respeito a eficiência, experimentos de laboratório realizados, com antimicrobianos indicados para uso em combustíveis sobre fungos deteriogênicos de óleo diesel comercial Bx, revelaram o seguinte: [7,16]

Agentes biológicos deteriogênicos:

  • Aspergillus fumigatus, Candida silvicola, Paecilomyces sp. e Rhodotorula sp. [7,16] 

Biocidas testados:

  • Isotiazolona e Oxazolidina. [7,16]

Resultados:

Quadro 02 – Morte de Candida silvícola (tempo de ação do biocida em minutos).         Fonte dos dados: [7, 16]

MisturaB5B100
Biocida
Isotiazolona 100 ppm30 min30 min
Oxazolidina 100 ppmNão houve consensoNão houve consenso
Isotiazolona 300 ppm15 min15 min
Oxazolidina 300 ppm15 min15 min

Quadro 03 – Morte de Rhodutorula sp (tempo de ação do biocida em minutos).            Fonte dos dados: [7, 16]

MisturaB5B100
Biocida
Isotiazolona 100 ppm15min15 min
Oxazolidina 100 ppmDados insuficientes para comparaçãoDados insuficientes para comparação
Isotiazolona 300 ppm15 min15 min
Oxazolidina 300 ppmDados insuficientes para comparaçãoDados insuficientes para comparação

Quadro 04 – Morte de Aspergilus fumigatus (tempo de ação do biocida em minutos).                Fonte dos dados: [7, 16]

MisturaB5B100
Biocida
Isotiazolona 100 ppm15min15 min
Oxazolidina 100 ppmDados insuficientes para comparaçãoDados insuficientes para comparação
Isotiazolona 300 ppm15 min15 min
Oxazolidina 300 ppmDados insuficientes para comparaçãoDados insuficientes para comparação

Quadro 05 – Morte de Paecilomyces sp (tempo de ação do biocida em minutos).                Fonte dos dados: [7, 16]

MisturaB5B100
Biocida
Isotiazolona 100 ppm15min15 min
Oxazolidina 100 ppmNão houve consenso15 min
Isotiazolona 300 ppm15 min15 min
Oxazolidina 300 ppm15 min15 min

Com relação ao TBHQ, apesar da já reconhecida atividade antioxidante, suas propriedades antimicrobianas não puderam ser comprovadas em escala laboratorial. [17]

*Fernando Landulfo é professor universitário com mais de 35 anos de expertise em mecânica automobilística. Sua formação inclui graduação em Engenharia Mecânica e mestrado em Projeto Mecânico. Ele também é autor de diversos artigos científicos relacionados ao setor automotivo, e publicou o livro “Manual Completo do Automóvel. Motores – Volume 1”

Referências:

[1] LANDULFO, Fernando. Biodiesel – Mitos e verdades. Nota Técnica. Disponível em: < https://autoacademico.wordpress.com/2025/06/08/biodiesel-mitos-e-verdades/>. 

[2] BRASIL. Ministério das Minas e Energia. Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Especificação do Biodiesel. Disponível em:< https://www.gov.br/anp/pt-br/assuntos/producao-e-fornecimento-de-biocombustiveis/biodiesel/especificacao-do-biodiesel> Acesso em: 12/05/2025.

[3] Aditivo in: DICIO – Dicionário online da língua portuguesa. Disponível em:< https://www.dicio.com.br/aditivo/>. Acesso em 16/07/2025. 

[4] BRASIL. Ministério das Minas e Energia. Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. RESOLUÇÃO ANP 968, DE 30 DE ABRIL DE 2024 – DOU DE 02-05-2024. Estabelece as especificações dos óleos diesel destinados a veículos ou equipamentos dotados de motores do ciclo Diesel e as obrigações quanto ao controle da qualidade a serem atendidas pelos agentes econômicos que comercializam o produto em território nacional. Disponível em:< https://atosoficiais.com.br/anp/resolucao-n-968-2024-estabelece-as-especificacoes-dos-oleos-diesel-destinados-a-veiculos-ou-equipamentos-dotados-de-motores-do-ciclo-diesel-e-as-obrigacoes-quanto-ao-controle-da-qualidade-a-serem-atendidas-pelos-agentes-economicos-que-comercializam-o-produto-em-territorio-nacional>. Acesso em: 12/05/2025.  

[6] PETROBRAS.  Óleo Diesel – Informações Técnicas. Versão Março 2023.

[7] BENTO, FÁTIMA M. et al. Impacto da adição do biodiesel ao óleo diesel durante a estocagem: Um enfoque microbiológico e controle. Revista Biodiesel, v. 47, n. 14, p. 1-5, 2010.

[8] MENEZES, Matheus Felipe Barbosa de; FREITAS, Raphael Henrique; DELBOUX, Victor; DUARTE, Vinicius Santana Pacheco; AZEVEDO, Weslley Phelipe; PEREIRA, Margarete Aparecida. Estudo dos efeitos dos aditivos no Biodiesel Study of the effects of additives in Biodiesel. Brazilian Journal of Development, v. 8, n. 1, p. 937-961, 2022.

[9] DO AMARAL, Bruna Elói; REZENDE, Daniel Bastos; PASA, Vânya Márcia Duarte. Estabilidade de blendas de diesel e biodiesel de soja/gordura animal em armazenamento com baixa e alta umidade. In: Congresso da Rede Brasileira de Tecnologia e Inovação de Biodiesel. Universidade Federal de Minas Gerais, 2019.

[10] ALMEIDA, José Santiago de. ESTUDO DA ESTABILIDADE OXIDATIVA DE BLENDAS DIESEL/BIODIESEL PARA USO AUTOMOTIVO. Monografia [graduação], p. 40, Centro de Tecnologia, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2018.

[11] FERRARI, Priscila Bianca Borghi. Estudo de Aditivos para Aumento da Estabilidade Oxidativa do Biodiesel. Dissertação (mestrado em engenharia química). Departamento de Engenharia Química. Universidade Federal do Parará, p. 94. Curitiba, 2012.    

[12] FERNANDES. Flavia Dias. Estudo da ação antioxidante e anticorrosiva de produtos naturais usados como aditivo de biodiesel. Dissertação (mestrado em engenharia química). Universidade de São Paulo. Escola de Engenharia de Lorena, p.155, Lorena, 2018.  

[13] NOGUEIRA, Flavia Alice Praça. Avaliação Cinética de Aditivos para Biodiesel. Tese (doutorado em química). Departamento de Química do Centro Técnico Científico. PUC – Rio de Janeiro, p.179, Rio de Janeiro, 2023.   

[14] MARQUES, Cleber Aimoni; MATHIAS, Marco Antonio; VARGAS, Michael Collins; SOUZA, Samuel Nelson Melegari de; JUNIOR, Valdir Mariano Machado. 

Energias renováveis – aditivo em biodiesel. Revista Observatorio de La Economia Latino Americana. v.22, n.12, p.01-29, 2024, Curitiba.     

[15] GOUVEIA, Adriana Ribeiro; MELO, Ana Paula Alves Viana.  AVALIAÇÃO DE ANTIOXIDANTES COMERCIAIS NO DESEMPENHO DO BIODIESEL: ABSORÇÃO DE ÁGUA E TEMPO DE INDUÇÃO. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação em engenharia química). Escola de química. Universidade Federal do Rio de Janeiro, p.93, Rio de Janeiro, 2007.  

[16] BUCKER, Francielle. BIODETERIORAÇÃO DE MISTURAS DE DIESEL E BIODIESEL E SEU CONTROLE COM BIOCIDAS. Dissertação. (mestrado em microbiologia agrícola e do ambiente). Instituto de Ciências Básicas de Saúde. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2009.

[17] BEKER, Sabrina Anderson. AVALIAÇÃO DO POTENCIAL ANTIMICROBIANO DE TBHQ (Terc-butil-hidroquinona) E DE BIO-ÓLEO PARA USO EM BIODIESEL DE SOJA (B100) E ÓLEO DIESEL B (B10). Dissertação. (mestrado em microbiologia agrícola e do ambiente). Instituto de Ciências Básicas de Saúde. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2014. 

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